10/09/2014

#StoptheBeautyMadness

Eu não uso maquiagem todo dia. Uso porque gosto, porque sem lápis sinto que meus olhos parecem menores e parece que estou sempre com sono. Mas uso pouco, em geral. Só passo base e corretivo quando estou com algumas espinhas, e mesmo assim é raro. Novo levo um arsenal quando vou viajar, geralmente minha necessaire é só de lápis de olho, rímel, uma sombra neutra, no máximo dois batons e um corretivo para emergências.

Eu acho essa campanha muito legal para mostrar que a gente não precisa estar perfeita sempre, que nossa vida não é um mural do pinterest, que todo mundo tem olheira, que mulheres lindas continuam se sentindo feias por causa dos padrões de beleza impossíveis que enfrentamos, que nem a Gisele parece a Gisele quando acorda.

Mas a Gisele continua convencionalmente bonita quando acorda. Sabem porque eu não uso corretivo? Porque eu não tenho olheiras, não tenho marcas de espinha, cicatrizes, manchas, não preciso esconder pêlos nascendo no rosto. Porque eu também sou convencionalmente bonita sem maquiagem. Eu não acho empoderador ver fotos de mulheres bonitas sem maquiagem. Elas continuam bonitas.

Na minha vida, sempre me senti muito mais pressionada a não usar maquiagem e conservar minha "beleza natural", regado a muito protetor solar, hidratante e comida de boa qualidade. Eu comecei a me maquiar todos os dias com uns 12, 13 anos e ouvia muitas críticas na escola. Que ridículo ir pra aula de lápis e batom vermelho. Na faculdade, se fosse de rímel, me sentia uma drag queen, no curso de humanas onde teoricamente as liberdades individuais são mais respeitadas. Namorei por três anos um babaca que dizia - sem nenhum eufemismo - que me achava feia de maquiagem. Então eu fiquei três anos sem usar nada.

Mas eu gosto e sempre gostei. Acho que as pessoas devem usar o que quiserem, como quiserem. Cada um sabe das suas inseguranças e, se passar três camadas de corretivo ajudar a melhorar sua auto-estima, por que não?

E eu vou continuar usando meu delineador grunge - para não dizer mal passado - e meus batons escuros durante o dia porque eu não quero parecer natural.


20/08/2014

Literatura de mulherzinha

Eu conto histórias desde criança. Lembro com muita clareza que desenhava umas sereias tortas presas a máquinas de choque que estraíam a verdade delas. Sempre assisti desenho animado demais. Meus legos e meus playmobils e minhas barbies tinham as melhores histórias. Escalavam montanhas e descobriam outros mundos, fazendo coisas incríveis. Enchi um caderno de 500 páginas com uma aspirante a Britney Spears, era bem ruim, mas fui eu que fiz. Depois veio o Harry Potter e o Senhor dos Anéis e comecei a escrever fantasia. Meus protagonistas de aventura, desde criança, quase sempre eram meninos, assim como nas histórias que eu lia, que eu via na TV e nos filmes. Mulher é meio chato, né?, melhor escrever sobre menino, que não tem essas frescuras de ficar apaixonado e quebrar a unha no meio do caminho.

Na época eu tinha a Rowling, a Mary Shelly e a Louise May Alcott. Eram poucas, mas estavam lá. Eram bem menos que a torre de escritores masculinos que recomendavam na escola e em todos os lugares. Leio bem poucas autoras femininas, provavelmente por causa de preconceitos instituídos há muito tempo, de que mulher só escreve "coisa de mulherzinha" e eu, obviamente, não era uma mulherzinha.

Parei de escrever na faculdade. Por medo das pessoas lerem o que eu lia, por me sentir incrivelmente inadequada porque ainda escrevia terror e fantasia no meio dos hipster e de histórias tão mais importantes e porque alguém me disse que eu deveria tentar mudar, parar de escrever fantasia, essas coisas de criança. E eu não conseguia. Porque eu não gostava de escrever outras coisas, porque estava entrando em depressão, mas também porque não tinha lá muitas referências. A Rowling, por mais incrível que seja, não pode lutar contra todas as batalhas e todos os dementadores sozinha.

Eu lembro de ter prometido para mim mesma que não escreveria no blog sobre coisas de menina para não espantar meus poucos leitores meninos, mas eu não sei, na verdade, o que são "coisas de menina". Talvez fosse cosméticos, cabelo e acessórios ou talvez fosse... relacionamentos? É isso mesmo, né? Relacionamento é "coisa de menina". Eu prometi para mim uma vez que nunca escreveria sobre meus poucos relacionamentos fracassados para não ficar parecendo a Tati Bernardi. Mas é engraçado que quando o Chico Buarque ou mesmo o Xico Sá (*cospe no chão*) falam sobre isso, é lindo e poético, mas quando uma mulher fala, bom, é só coisa de mulherzinha histérica que não tem mais com o que se preocupar, passando de um namorado para outro, amando a todos com a mesma intensidade desenfreada. Eu nunca quis ser dessas mulheres. Eu queria ser um homem, que não ama ninguém, apenas a ele mesmo e que tem todas as licenças poéticas do mundo para escrever sobre sentimentos como se fosse um outsider, como o Tim Burton.

Mas, bem, eu sou uma mulher e escrevo porque preciso. E achei recentemente esse tumblr incrível que mostra que eu - e todas as outras meninas que querem escrever - não estamos sozinhas e que ainda há esperança pra gente. E que vamos conquistar o que é nosso e que não precisamos imitar os meninos para fazer isso.

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Recentemente voltei a ler um monte de blogs de meninas que acho geniais e estou tentando acompanhar mais mulheres que fazem coisas legais, mas é bem mais difícil, por algum motivo - ou porque demanda mais tempo - encontrar mulheres escritoras. Se tiverem indicações de coisas bem legais, estou aceitando :)

17/08/2014

Colo

Cachorro é foda. Tropecei no Tom todos os dias da nossa vida enquanto moramos juntos e ele continuava dormindo ao lado da minha cadeira, sempre pertinho de mim enquanto eu trabalhava. O Tom sempre soube quais eram as boas companhias, só aceita essas. É mal-educado com as pessoas que não valem a pena. Pequeno, até chega a morder. Arrogante, não mostra carisma para quem não merece. E sempre foi assim. Desde filhotinho, quando era incrivelmente fofo e peludinho, mesmo nunca tendo gostado de colo ou de carinho demais. Quando fui morar em outra cidade, foi dele que mais senti falta. E ele, dizem, sentiu muito a minha, também.

Mas agora o Tom está ficando velho. Velho e manhoso. Faz 14 anos em outubro. Não consegue mais subir no sofá sem ajuda e quer sempre estar encostadinho na gente. Cismou de dormir na cama com os donos, até quer subir no colo enquanto estamos almoçando. Passou o dia longe de mim, andando pela casa, fazendo companhia para meu pai. Agora que estamos sozinhos, veio pedir carinho. Colocou as patas dianteiras na minha cadeira, pedindo colo.

Mas eu sei que ele sabe que quem está precisando de colo sou eu.

03/08/2014

As colagens de Frederico Hurtado

Eu não sei o que é sobre colagem que me atrai tanto. É lindo e bizarro ao mesmo tempo, como todas as melhores coisas do mundo. Frederico Hurtado é um arquiteto argentino, de Buenos Aires, que faz as colagens mais lindas. As imagens resultantes parecem sonhos, ainda mais aquelas feitas em contracapas de livros antigos, fazendo tudo parece ainda mais onírico e esquecido.












Fonte: Frederico 2011


28/07/2014

Inspired: o que significa ser tatuado hoje

Eu gosto de vídeos curtos e objetivos. Um, dois minutinhos são tempo o suficiente para expressar o mundo. E, geralmente, nada fica sobrando. Em Inspired Tattoo Portraits, vemos tatuagens, seus donos e seus arredores. É um minutinho para ver detalhes que contam histórias, que dizem mais que horas de conversa poderiam dizer, sem ficar repetitivo e cansativo. Costumam reclamar da rapidez do mundo contemporâneo, mas às vezes é melhor assim: sutil e delicado.











21/07/2014

Casarão

Sempre gostei muito do casarão em ruínas na Paulista. Eu não sei o nome certo dele, deve ser Casarão. Ouvi dizer recenemente que ele seria reformado para ser um museu. Fiquei feliz porque seria mais um centro cultural, mas fiquei triste porque eu gosto dele assim: arrasado. Então fui lá e fotografei, antes que ele fique convencionalmente bonito de novo.




18/06/2014

Tim Burton's Hansel and Gretel

Em 1982, quando Tim Burton ainda era animador, ele fez uma versão de João e Maria para a Disney Channel, que foi ao ar em 1983, em um especial de Dia das Bruxas. As críticas da época disseram que era mal-feito e sem ritmo, que os 40 minutos poderiam facilmente terem sido resumidos em 20. A Disney achou sombrio demais (como achou todos os filmes iniciais de Burton, inclusive a versão live-action de Frankenweenie, de 1984) e o filme nunca mais foi exibido - em lugar nenhum, nem mesmo na internet.

Na verdade foi exibido na exposição do Tim Burton, criado pelo MoMA, que está rodando o mundo. Eu vi um pedacinho do filme quando fui na exposição do LACMA, em 2011, mas não gosto muito de ver vídeo em exposição. Tinha certeza que encontraria depois online. Ano passado descobri que esse era o filme mais procurado no MakingOff e que ele realmente não existia em lugar nenhum. Mas parece que alguém achou um VHS antigo e fez o favor de digitalizá-lo.


É meio tosco, sim. Dá pra ver claramente o papel colado na parede e onde a maquiagem da bruxa termina. Mas os outros recursos, principalmente o desenho animado misturado com live-action, são de uma simplicidade tocante. Dá para ver todos os temas explorados por Tim em outros filmes: as mesmas listras, os mesmos brinquedos-monstros, as mesmas colinas tortuosas. Está tudo aí, com orçamento baixíssimo. Um pré-Beetlejuice, quase. É tão singelo que eu não sei como conseguiram mantê-lo escondido por tanto tempo, sem que nem mesmo o diretor quisesse que viesse a público.
Obrigada, Tim, novamente, por sempre me fazer chorar.