30 de jul de 2015

Remédios

Esqueci meus remédios por alguns dias. Fui para a casa dos meus pais - para o interior de mim - por alguns dias. Esqueci meus remédios. No primeiro dia tentei me manter calma, me convenci de que não estava dependente deles, que poderia seguir normalmente. 

No meu quarto antigo, nada me pertence. Sobraram apenas as lembranças de mim que não quero mais lembrar. Um lugar que não me pertence mais. Meu quarto antigo se tornou um depósito cor de rosa de personalidades de que não sinto falta e de memórias distorcidas. Confrontei meus pais sobre uma das memórias que mais me machucava. Por que eles me tiraram da escola que mais gostei na vida para me colocarem na escola onde até os professores caçoavam de mim? Mas não, isso nunca aconteceu. Eu é que estava lembrando ao contrário. O que mais eu estou lembrando ao contrário? Será que minhas memórias e minhas preocupações existem de verdade? Estou me tornando a caricatura do que sempre achei que achassem de mim? Alguém mais se importa?

No quarto dia eu sangrei. Não estava preparada para isso. Isso explica as dúvidas, as lágrimas fora de hora e a enxaqueca dos dias anteriores.

Estou sempre exagerando as coisas. Leio os sinais do corpo como símbolos do meu fracasso. 

Mas a falência do corpo não é o fracasso de quem somos? Não é isso que somos? Ciborgues movidos a compostos químicos que tomamos para nos mantermos equilibrados?

7 de jun de 2015

Buraco

- Ei moça. Mooooça.

Abri os olhos um pouquinho. Não sabia bem onde estava. Tudo ao meu redor era escuro e úmido. A única luz vinha de um buraco lá em cima, bem longe. Ainda dava pra ver o céu branco de poluição e neblina.

- Tá tudo bem, moça?

Me virei, lentamente, me dando conta de toda a dor que estava sentindo. Meu pescoço, atrás da cabeça, minhas pernas. Engoli um pouco de sangue.

A voz que falava comigo era suave, vinha de algum lugar à minha esquerda. Não consegui distinguir nada além disso. Coloquei a mão na cabeça e senti que estava grudento. Não sabia se era água suja ou sangue ou qualquer outra coisa. Preferia não ter que descobrir.

- Você caiu lá de cima, moça. Foi um tombo e tanto. Pensei que tinha morrido.

- Eu não morri? - me forcei a dizer - O que é esse lugar?

- É o submundo.

- Pensei que tivesse dito que eu não estava morta.

- Não, não o inferno - ouvi a voz suprimir um riso - O submundo. O mundo tá lá em cima, ó. A gente tá aqui embaixo.

De repente, me lembrei de tudo. Levantei-me para sentar, sentindo todos os músculos e nervos do cox e das pernas gritarem.

- É mesmo! Eu caí! Eu sabia que nunca deveria andar em cima dos bueiros gigantes por um motivo!

- A gente sempre tem motivo pra tudo.

- Ai não! E justo hoje que eu tinha que ir no banco pagar o cartão atrasado e eu tava na rua só por cinco minutinhos que depois eu tinha que voltar pra casa e terminar meus freelas e minha dissertação e ligar pra minha mãe e ainda nem sei o que fazer para o jantar-

- Bom, aqui embaixo tem uma hortinha. Tô ficando muito bom em culinária vegana crudívera. Menos quando aparece um rato, aí eu sou onívero crudívero.

Houve um momento de silêncio. Imaginei a textura do rabo do rato passando pela língua como um espaguete grosso e peludo.

- A gente tem que sobreviver, né? É muito bom quando cai pipoca também.

- Eu preciso muito sair daqui.

- Ou você pode esquecer seus problemas e ficar aqui embaixo.

- Não. A gente tem que resolver nossos problemas, senão eles resolvem a gente. É o que minha mãe sempre diz.

- Você faz tudo que sua mãe quer?

Achei meu celular na bolsa. A luz me cegou por alguns instantes. Ouvi meu companheiro de buraco gitar também.

- Sem sinal. Merda de Tim.

- Aqui embaixo nenhuma operadora pega. Nem 3G, nem nada. Foi a primeira coisa que joguei fora quando caí aqui.

Finalmente direcionei a luz para meu interlocutor. Parecia um mago, mendigo ou um hippie louco. Talvez fosse os três. Estava sujo, barba e cabelo compridos e despenteados, um terno velho surrado. Parecia perfeitamente feliz.

- Faz tempo que você tá aqui embaixo?

- Eu cheguei a contar 96 dias. Para todo dia que eu tava aqui, fazia um risquinho no chão. Depois, perdi a conta. Foi quando comecei minha hortinha e a me dedicar à meditação.

- Três meses? Faz mais de três meses? Ninguém veio te procurar? Sua família, seus amigos, os bombeiros? Ninguém?

- A polícia vem às vezes. Ainda bem que eu não tenho um colchão, senão tirariam de mim. Eles vêm, fingem que não me vêem e vão embora. No começo achei que fossem me ajudar, depois tive medo, hoje só fico feliz que me deixam em paz.

- Você não sente falta do mundo lá fora?

- Não muito. Eu vivia pros outros, sabe? Trabalhando pros outros, gastando dinheiro pros outros, deixando os outros felizes. Esquecia de mim. Não sei porque corria tanto, me esforçava tanto. Eu não precisava de nada daquilo. Agora sei que só preciso estar aqui, com minha hortinha.

- Sempre quis uma horta. Não cabe no meu apartamento e eu nem tenho tempo pra cuidar.

- Se quisesse mesmo, você criava tempo.

- E nem adianta. O apê não é meu. Nem sei onde vou estar morando ano que vem.

- Aí é só escolher um lugar que cabe sua horta. O que mais você queria fazer que não dá tempo?

- Queria viajar o mundo. Fazer um mochilão pela América Latina antes de mudar definitivamente para a Europa.

- É, viajando não dá pra carregar a horta. Tem que escolher um dos dois.

- Tem tanta coisa pra ver no mundo e a gente aqui, nesse buraco.

- Fale por você, esse buraco é meu mundo inteiro.

- Você nunca tentou sair daqui?

- Pra quê?

- Pra... Sei lá, criar uma horta maior, abrir um food truck orgânico.

- Viu? As pessoas lá de cima só pensam em dinheiro e em trabalho. Pra que quero fazer parte disso? È muito melhor ficar aqui meditando, sem ninguém me cobrando o dia inteiro.

- Preciso muito sair daqui.

- À vontade.

Ouvi-o se mexer ao meu lado e começar a meditar.

Tinha que haver um jeito de sair daqui. Tem que ter.

27 de abr de 2015

Coisas que aprendi morando sozinha

Eu nunca tinha morado sozinha. Nunca fiz intercâmbio, fiz faculdade na cidade dos meus pais e, quando vim pra São Paulo fazer a pós, mudei para a casa da minha tia. Aí em novembro achei uma kitnet legal e vim morar sozinha. Nesses cinco meses aprendi muita coisa, principalmente que uma casa dá muito trabalho.

  1. Banheiros não são auto-limpantes e eu solto muito mais cabelo do que jamais imaginei.
  2. Passar pano no chão realmente faz diferença.
  3. Fazer comida duas vezes por dia cansa. Lavar panela todo dia é um saco.
  4. Investir em um bom jogo de panelas de teflon é muito importante. Eu não tenho um bom jogo de panelas de teflon.
  5. Tábuas de corte de madeira mofam.
  6. Ainda tem pó e mosquito no 16º andar. Ainda mais quando você no centro.
  7. Sujeira de fogão é coisa do diabo. A pessoa que inventou de embrulhar o fogão em papel alúmino pela primeira vez foi um gênio.
  8. Apesar de tudo isso, eu consigo dar conta de limpar tudo.
  9. Eu até consigo montar meus próprios móveis!
  10. Eu cozinho melhor que minha mãe. Desculpa, mãe.

A melhor coisa de morar sozinho não é poder decorar do seu jeito, poder fazer o que você quiser, do jeito que você quer. É ter a convicção de que você tem capacidade de fazer tudo isso.

17 de abr de 2015

Os 5 estágios pós-namoro

Terminar namoros é sempre bom. Claro que na hora parece terrível, mas, com o tempo, melhora. Depois que você termina, vem todos aqueles sentimentos de liberdade. Poder conhecer pessoas novas e poder dedicar muito mais tempo para você e as coisas que você gostava de fazer antes de conhecer seu ex, que achava todos os seus hobbies idiotas. Mas, principalmente, você quer recuperar o tempo perdido. Apresento aqui os 5 estágios decorrentes do fim de um namoro.

1. Você quer pegar todo mundo

Não importa se você namorou 5 anos ou 2 meses, a impressão que dá é que durante o tempo que você ficava com uma pessoa só, você poderia ter ficado com milhões de pessoas. E então você começa a diversificar suas escolhas, ficando com pessoas que na verdade você nem sente tanta atração assim, só pra dar uma variada e experimentar de tudo. E como é maravilhoso perceber que mais gente se sente atraído por você além daquele seu ex confortável que nem te elogiava mais.

2. Você odeia pessoas do sexo oposto

Enquanto você passava o rodo na balada, você descobre que, um mês depois de vocês terminarem, seu ex está namorando aquela menina que você morria de ciúmes e a levando para o restaurante que você adorava, mas que ele sempre reclamava que era muito caro. Passa tempo o suficiente para você perceber todas as mancadas que seu ex deu quando vocês namoravam. Você também fica chateada que ninguém com quem você fica sai mais de duas vezes com você. Você reclama com as amigas solteiras que estão na mesma situação. Você chega à conclusão de que nenhum homem presta. Você começa a pesquisar preços de vibradores, mas nunca decide qual comprar, o que te deixa ainda mais amargurada.

3. Todo mundo que você quer pegar é da sexualidade oposta da sua

Nessa de achar as pessoas que você poderia pegar são todos uns babacas, você começa a fazer amizades com pessoas que não ficariam com você. Eu acho que isso não acontece no mundo gay, mas se você for hétero, com certeza você vai começar a se apaixonar por pessoas gays. Elas são do sexo oposto e gostam das mesmas coisas que você, são sempre mais charmosas e falam com você com muita despretensão. Justamente por coisas inalcançáveis serem sempre as melhores, você nunca vai se apaixonar pelo bissexual ou pelx gay que às vezes fica com meninxs, é sempre pela bichona ou pela caminhoneira.

4. Todo mundo que você quer pegar namora

Pessoas que namoram sério, apaixonados, que nunca traem, mas que também têm tempo para os amigos e não são grudentos demais são sempre mais atraentes. É o relacionamento que você sonhava para você: uma parceria, um time. E, enquanto você ainda odeia pessoas do sexo oposto, aquele amigo parece que achou a única pessoa que valia a pena, diferente de todos os outros. Ela te trata como você realmente queria ser tratado: como uma amiga.

5. Você relaxa e começa a conhecer um monte de gente legal

Você para de correr atrás, para de sair pra balada todo fim de semana, para de pedir pros seus amigos te apresentarem amigos, sai do tinder. Você volta a se ocupar do seu trabalho, dos seus projetos pessoais, faz vários amigos solteiros super legais e cheios de planos como você, gasta seu dinheiro com viagens e cursos, volta a sair mais com sua família. Você finalmente compra aquele vibrador que tinha pesquisado preço no item 2. Faz sua vida ser exclusivamente sobre você e sobre as pessoas que você gosta de verdade. E, nessas, começa a conhecer um mundo inteiro de gente incrível. E nem precisa ser necessariamente para namorar.

1 de abr de 2015

Do tempo que eu achava que Skrillex era uma mulher

Eu não sei distinguir gêneros muito bem. Talvez eu seja uma pessoa muito iluminada livre desse tipo de preconceito. Ou talvez eu só seja muito desligada mesmo. Na verdade as pessoas dizem que sou muito desligada com alguma frequência. A última vez foi semana passada quando eu não percebi que uns pivetes estavam para assaltar eu e minha amiga enquanto bebíamos na praça. Olha só como sou livre de preconceitos de novo. Sou mesmo um poço de iluminação.

De qualquer jeito, quando o dubstep apareceu, eu tinha certeza absoluta de que Skrillex era uma menina. Uma menina muito cool com sidecut, roupas de menino e um nome artístico legal e agressivo. Tinha uma vibe meio Joan Jet. E eu achava ótimo que uma mulher tinha inventado um gênero novo de música eletrônica tão revolucionário e barulhento que todo mundo odiava. Eu até ficava brava com as pessoas quando elas criticavam dubstep porque eu achava que elas só não gostavam porque foi uma mulher que inventou. Naquela época eu tinha acabado de sair de um relacionamento problemático, descoberto o feminismo e estava numa fase bastante misândrica. Mas eu não lembro de realmente ter brigado com alguém porque essa também era a fase que eu guardava todas as minhas frustrações. Mas, né?, precisamos apoiar a arte das minas.

Aí aconteceu de eu descobrir que a Skrillex namorava outra menina e tive que a reação que eu sempre tenho quando descubro que uma artista que eu gosto é gay: fico contente pela diversidade, mas traída porque é uma pessoa a menos pra me fazer sentir menos bosta por ser héteto. Parece que todas as meninas legais do mundo são lésbicas ou bissexuais, é tipo uma condição para ser legal. Queria mais minas legais héteros misândricas que se abstêm de fazerem sexo, como eu.

E então, depois de muito tempo, li uma notícia sobre Skrillex que usava o artigo masculino. Artigos. Palavrinhas tão pequenas que abrem o chão sob nossos pés e fazem nossas vidas perderem completamente o sentido. Nada pior que descobrir que sua ídola na verdade é um homem. Cis. Hétero. Que pesadelo.

Voltei a achar a Shirley Manson o suprassumo do cool e adotei o meu próprio sidecut. Ainda gosto de dubstep, mas agora podem dizer o que quiserem do Skrillex que não é mais problema meu.

10 de set de 2014

#StoptheBeautyMadness

Eu não uso maquiagem todo dia. Uso porque gosto, porque sem lápis sinto que meus olhos parecem menores e parece que estou sempre com sono. Mas uso pouco, em geral. Só passo base e corretivo quando estou com algumas espinhas, e mesmo assim é raro. Novo levo um arsenal quando vou viajar, geralmente minha necessaire é só de lápis de olho, rímel, uma sombra neutra, no máximo dois batons e um corretivo para emergências.

Eu acho essa campanha muito legal para mostrar que a gente não precisa estar perfeita sempre, que nossa vida não é um mural do pinterest, que todo mundo tem olheira, que mulheres lindas continuam se sentindo feias por causa dos padrões de beleza impossíveis que enfrentamos, que nem a Gisele parece a Gisele quando acorda.

Mas a Gisele continua convencionalmente bonita quando acorda. Sabem porque eu não uso corretivo? Porque eu não tenho olheiras, não tenho marcas de espinha, cicatrizes, manchas, não preciso esconder pêlos nascendo no rosto. Porque eu também sou convencionalmente bonita sem maquiagem. Eu não acho empoderador ver fotos de mulheres bonitas sem maquiagem. Elas continuam bonitas.

Na minha vida, sempre me senti muito mais pressionada a não usar maquiagem e conservar minha "beleza natural", regado a muito protetor solar, hidratante e comida de boa qualidade. Eu comecei a me maquiar todos os dias com uns 12, 13 anos e ouvia muitas críticas na escola. Que ridículo ir pra aula de lápis e batom vermelho. Na faculdade, se fosse de rímel, me sentia uma drag queen, no curso de humanas onde teoricamente as liberdades individuais são mais respeitadas. Namorei por três anos um babaca que dizia - sem nenhum eufemismo - que me achava feia de maquiagem. Então eu fiquei três anos sem usar nada.

Mas eu gosto e sempre gostei. Acho que as pessoas devem usar o que quiserem, como quiserem. Cada um sabe das suas inseguranças e, se passar três camadas de corretivo ajudar a melhorar sua auto-estima, por que não?

E eu vou continuar usando meu delineador grunge - para não dizer mal passado - e meus batons escuros durante o dia porque eu não quero parecer natural.