23 de dez de 2015

Tem um senhor que vejo com frequência tomando chimarrão e gritando baixaria pra quem quiser que passe - ou mesmo para ninguém. Ele fica sentado na Praça Roosevelt de frente para a Rua da Consolação. Às vezes está na rampinha na frente da Igreja. Hoje de manhã estava sem camisa, em um dos banquinhos, gritando sobre o Papai Noel. Outro dia gritava que todo mundo caga. É sempre muito poético. Desconfio que seja um ator de um dos teatros de rua em volta da praça, mas não posso ter certeza.

A linha tênue entre a marginalidade social e a performance.

15 de dez de 2015

Sabe onde mais dói fazer tatuagem?

Dói em cima do osso do externo, entre os seios quando te dizem que você nunca mais vai conseguir trabalhar.

Dói nos pulsos e nas veias que pulsam quando te dizem que você era tão bonita antes.

Dói atrás da nuca que atravessa até o fundo da garganta quando dizem que você choca e espanta os clientes.

Dói na planta do pé que sobe até o joelho e te desestabiliza quando insinuam que sua pele se extende até o universo e isso tudo é responsabilidade sua.

É só um desenho na minha pele. 
É só pele. 
É só minha pele.

É só minha pele.

31 de out de 2015

Preto

Estava um dia quente. Muito quente. Mais que o normal. Sentei embaixo de uma árvore e tentei descansar um pouco. Acho que consegui dormir um pouco, não sei quanto tempo passou. Quando acordei, com um baque alto de alguma coisa caindo no chão, o mundo era um lugar completamente diferente.

Me assustei, fui olhar o que tinha caído. Era uma cobra. Só poderia ser uma cobra. Longa, musculosa, preta. Tinha cinco membros esguios em uma das pontas. Como era possível? 

Devia ser um sonho, mas tinha certeza que estava acordado. Talvez fosse uma alucinação por causa do calor. Resolvi aceitar o que era lógico. O braço decepado à minha frente devia ser de algum escravo castigado. Estranhei que não sangrava.

Mal tive tempo de me recompor da minha conclusão óbvia quando outro braço caiu do céu. Tão preto e tão forte quanto o primeiro. Também não havia traços de sangue. Em seguida caiu uma perna. Depois outra perna. Identifiquei a árvore de onde os membros caíam. Era justamente aquela onde eu descansava. Naquele momento, comecei a ficar preocupado. Caiu um tronco, forte e preto.

Por último caiu uma cabeça. A terrível cabeça.

As partes do corpo começaram a se unir lentamente. Pernas e braços que eram serpentes infernais indo de encontro ao torso. Arrastavam-se lentamente. Quando chegaram perto, encaixavam-se como se fossem pedaços de um autômato do submundo. Rodavam até atingir a posição correta. Inteiramente montado, levantou-se para sentar. Os braços se esticaram, recolheram a cabeça do chão. Ergueram-na com delicadeza e colocaram-na no lugar. Esticou por um instante.

Os olhos se voltaram para mim, aqueles terríveis olhos de fogo.

Juntei toda a coragem que ainda me restava e perguntei quem era ele.

Ele sorriu, dentes muito brancos no rosto escuro:

– Eu sou o diaaaa–

Não o esperei terminar de falar. Levantei o mais rápido que eu pude e me apressei para a casa do seu bisavô. Por muito tempo ainda ouvi sua risada demoníaca atrás de mim.

– Que racista, vô! – ele falou, estupefato, voltando a assistir TV do sofá da sala dos avós.

– Pois foi assim que aconteceu.

28 de out de 2015

Senta e faz o que te mandarem. Ninguém te perguntou o que você quer. Não tem porque não quis, porque nunca foi atrás. Não dá opinião no que não entende. Não inventa, mas também não fica parada. Tem que ser pró-ativa. Tem trabalho pra caralho pra fazer. E você fica aí, enfiando as ideias e a água que insiste em sair do olho nesse caderninho. Procura outras saídas pra tentar ser feliz e só se fode. Carrega essa culpa toda por quê? Tem tudo que podia querer. Aceita e engole. Está até mais magra. Todo mundo elogia. Não está conseguindo comer por quê? Cada um sugere uma saída diferente. E você? Quer o quê? Fica quietinha, faz seu trabalho. Foca nas prioridades. E produz, produz, produz pros outros. Faz o que o que mercado quer. O que você tem a dizer? Você não tem nada a dizer. Vive vazia, vazia, vazia. Vive procurando alguma coisa pra ocupar o lugar.

Não tem nada a dizer.

Vive procurando sarna pra se coçar. Seus problemas não existem. Olha quanta gente tem problema de verdade. Você nem consegue lembrar dos seus próprios problemas. Não consegue se organizar. Não consegue lembrar nada. Não consegue organizar esse monte de ideia que mora na sua cabeça. Pensa tanto e não chega a lugar nenhum. É um grande nada. Não consegue. Não consegue. Não consegue.

Você não tem nada a dizer. É um grande vazio, vazio, vazio.

7 de set de 2015

Fome

Quando eu ia almoçar na época do meu primeiro estágio, aos 16 anos, percebi que eu gastava uns 25 reais no quilo. Minha chefe, que era bem magrinha e reclamava que não parava de emagrecer, gastava 7. Me perguntava diariamente se ela não estava com fome e - pior - se eu é que não deveria comer daquele jeito e ver se não emagrecia logo.

Li uma teoria feminista uma vez de que a necessidade da magreza feminina não é apenas estética, mas política, já que mulheres sempre preocupadas com o peso são mais facilmente controladas. Começa com a necessidade de diminuir o açúcar, depois com não poder mandar mensagem pro crush para não demonstrar fraqueza, não andar sozinha à noite para não ser estuprada, até nunca poder pedir um aumento para não incomodar ninguém.

Não lido muito bem com restrições. Quero do meu jeito, o máximo possível, extravagante, intenso. Principalmente - mas não somente - com minha comida. Passei tempo demais achando que menina boa abaixa a cabeça, fica quieta, se anula na presença dos outros. Come pouquinho, é discreta, espera que venham até ela. Tem que esconder as formas do corpo para não parecer a puta da TV, substitui a manteiga por margarina, nunca fala dos sentimentos para não incomodar e não se humilhar.

Vou colocar a quantidade de azeite que eu quiser. Meu brownie leva uma lata inteira de manteiga. Vou mandar mensagem até que eu perca o interesse. Se eu estiver triste ou cansada, quero que todo mundo saiba.

Não vou me anular por causa da porra das suas regras.

5 de ago de 2015

Não sou daqui. Não sou de lugar nenhum.

“De onde você é?”

Ai meu deus, vou ter que contar a história toda. Meu deus, a preguiça, meu deus, os comentários e as mesmas piadinhas de sempre.

“É de São Paulo mesmo?”

Não… Sou… Do interior. Isso, sou de Campinas.

“Nasceu na Maternidade? Todo mundo de Campinas nasce lá, os mais novos nascem no CAISM.”

Não, eu…

Eu nasci nos Estados Unidos, meus pais são brasileiros e foram estudar lá. Moraram quase 10 anos. Eu vim para o Brasil com dois. Não, não lembro nada. E eu não sinto lá muito ligação com os Estados Unidos de qualquer jeito.  Aí mudamos pra Campinas, para a casa onde moramos hoje, e eu morei lá até uns 3 anos. Aí fomos para São Paulo de novo e eu fui criada como americana, me matricularam numa escola americana no ensino infantil. Aí com uns 11 anos nos mudamos para Campinas de novo, mas eu nunca me acostumei, sabe? Sempre quis voltar pra cá. Aí arrumei um jeito de voltar.

E na escola americana, eu era brasileira. E em todos os outros lugares, eu era americana. E em Campinas, eu era de São Paulo; e em São Paulo, eu sou de Campinas. E estou morando aqui há 3 anos e já acho que é tempo demais. Tô pensando em me mudar. Para longe, bem longe, procurar minha casa, minhas raízes.

Eu sou judia. Meu pai é judeu, meus avós fugiram da guerra. Minha mãe é cristã, mineira, bem brasileira. Minha vó tinha cara de índia. Nenhuma das minhas tias ou meus primos - e muito menos eu - têm cara de índio. Só uma prima. Dizem que ela puxou o pai dela, que tinha cara de índio. Eu sou super alemã.

Na família da minha mãe, nós somos os sobrinhos judeus. Minha mãe age como ídiche mame mesmo sendo cristã. Acho que ídiche mame deve ser o absoluto de todas as mães. Curiosamente - ou obviamente - o único lugar onde me senti pertencente foi em Israel. Todo mundo parecia um pouco comigo. Judeu é tudo igual.

Minha família do Rio, tradicionalmente judaica, diz que nós não somos judeus, porque não nascemos de ventre judaico. Por favor, não tirem o meu único resquício de identidade.

Minha mãe diz que o lugar onde ela passou mais tempo na vida foi Campinas, já está lá há 15 anos. Ela tem mais de 60. Meu pai diz que acha que é hora de se mudar quando começa a reconhecer gente demais na rua. Estou em São Paulo há 3 anos e já mudei de bairro 3 vezes. 

Minha mãe nunca enterrou meu cordão umbilical. Às vezes acho que nunca vou encontrar minha casa. Vou ficar pra sempre buscando e buscando e buscando e morando no mundo inteiro. 

Não sei o que são raízes.

30 de jul de 2015

Remédios

Esqueci meus remédios por alguns dias. Fui para a casa dos meus pais - para o interior de mim - por alguns dias. Esqueci meus remédios. No primeiro dia tentei me manter calma, me convenci de que não estava dependente deles, que poderia seguir normalmente. 

No meu quarto antigo, nada me pertence. Sobraram apenas as lembranças de mim que não quero mais lembrar. Um lugar que não me pertence mais. Meu quarto antigo se tornou um depósito cor de rosa de personalidades de que não sinto falta e de memórias distorcidas. Confrontei meus pais sobre uma das memórias que mais me machucava. Por que eles me tiraram da escola que mais gostei na vida para me colocarem na escola onde até os professores caçoavam de mim? Mas não, isso nunca aconteceu. Eu é que estava lembrando ao contrário. O que mais eu estou lembrando ao contrário? Será que minhas memórias e minhas preocupações existem de verdade? Estou me tornando a caricatura do que sempre achei que achassem de mim? Alguém mais se importa?

No quarto dia eu sangrei. Não estava preparada para isso. Isso explica as dúvidas, as lágrimas fora de hora e a enxaqueca dos dias anteriores.

Estou sempre exagerando as coisas. Leio os sinais do corpo como símbolos do meu fracasso. 

Mas a falência do corpo não é o fracasso de quem somos? Não é isso que somos? Ciborgues movidos a compostos químicos que tomamos para nos mantermos equilibrados?